seg. set 28th, 2020

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A droga da vez, entre os jovens.

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Vendida por WhatsApp e com potentes efeitos estimulante e alucinógeno, o "lança-perfume da nova geração" vira um desafio para a polícia

Sábado 16, 2 da manhã. Em uma festa regada a música brasileira, cerveja gelada e temperatura de 25 graus, com vista estupenda para a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, cinco amigos de corpo sarado exibido por camisa aberta se reúnem em torno de um saquinho plástico contendo um pó cristalizado. Enquanto o DJ toca para a pista abarrotada um remix dançante de Mania de Você, antigo hit de Rita Lee, os integrantes da roda se servem da substância como se estivessem tendo acesso a um pote de ouro. Com o dedo, levam o conteúdo direto à língua (há quem prefira diluí-lo na água). O consumo não ocorre escondido dos olhos de ninguém, dura menos de trinta segundos, e demora entre dez e vinte minutos para o negócio percorrer a corrente sanguínea e bater no cérebro. Nas horas seguintes, os usuários vão experimentar seus potentes efeitos estimulantes e alucinógenos. Inundado pela química que altera a regulação dos neurotransmissores, o organismo fica em estado de hipersensibilidade, o que amplia percepções como o sentimento de prazer. “Eu tenho vontade de dançar e tocar nas pessoas, fico muito sexual”, descreve a universitária paulistana R.M., de 21 anos.

Cenas semelhantes vêm se repetindo em baladas, shows, raves, festas de faculdade e encontros ao ar livre em vários pontos do país. A substância em questão é uma das drogas mais potentes e perigosas já desenvolvidas em laboratório: o MDMA (sigla para 3,4-metilenodioximetanfetamina). Os mais íntimos a chamam apenas de MD. Ela é também conhecida por apelidos como “Michael Douglas”, “Madonna” ou “Molly”. Trata-se de uma espécie de versão melhorada do ecstasy, a denominada pílula do prazer, que perdeu parte da popularidade entre os jovens com maior poder de compra, sobretudo os millennials, quando passou a ser misturada pelos traficantes a substâncias como bicarbonato de sódio, provocando efeitos colaterais como vômitos e diarreias.

Considerado muito mais puro, o MDMA desembarcou no Brasil há mais de dez anos e, por essas e outras “vantagens”, transformou-se nos últimos tempos no mais procurado combustível sintético de adolescentes e adultos de classe média alta. O uso disseminado fez a droga fabricada em laboratório ser apontada como o lança-perfume dos novos tempos, sendo um dos aditivos mais usados em blocos e bailes de Carnaval. Virou também elemento da cultura pop, com citações em letras de música, sobretudo funk, além de menções em estampas de camisetas de marcas famosas. Há riscos enormes no consumo do entorpecente, mas que são desprezados por grande parte dos usuários. O MDMA provoca distúrbios importantes no organismo e, em casos extremos, leva à morte por falência hepática, hipotermia ou parada cardíaca.

Para as autoridades encarregadas da repressão às drogas no Brasil, um dos alarmes que despertaram atenção foi o aumento substancial de apreensões desses sintéticos no país. Só no Estado de São Paulo essas ações tiveram crescimento de cerca de 360% no primeiro semestre de 2019 em comparação ao mesmo período de 2018. Nesse espaço de tempo, flagras relacionados a cocaína e crack evoluíram em torno de 80%. A denominação “sintéticos” abriga vários tipos de droga, incluindo o ecstasy, mas os especialistas atribuem ao MDMA o papel de ter inflado os números. Por isso, recentemente, criou-se uma categoria específica para ele a fim de monitorar de perto o fenômeno. Mais preocupante ainda é que os dados podem não refletir o tamanho da encrenca. Diferentemente da maconha e da cocaína, o MDMA é inodoro e pode passar despercebido pela fiscalização. Para comprovar que a substância é ilícita, é necessário fazer um teste químico minucioso. “Às vezes, o MDMA vem escondido em frascos de remédio ou dentro de comprimidos”, diz o delegado Fabrizio Galli, chefe da área de entorpecentes da Polícia Federal de São Paulo. Outro problema: pouca droga faz a cabeça de muita gente. Com 1 grama, vendido a partir de 150 reais, é possível garantir a euforia de um grupo de dez pessoas ao longo de uma noite inteira.

A situação é preocupante porque um pedaço da produção hoje é made in Brazil. Se antes a substância chegava de países como Holanda e Bélgica, a partir deste ano os policiais começaram a descobrir laboratórios de MDMA em locais como Santa Catarina e Distrito Federal. Ao todo, foram desbaratadas ao menos dez centrais de produção nos últimos meses. A maioria delas se resume a uma quitinete ou chácara afastada, equipada com tubos de ensaio, balanças, termômetros, filtros, estufas, máscaras, luvas, compressores, aquecedores e muitos galões de produtos químicos. Em uma das ações mais recentes, realizada em setembro, uma fábrica clandestina da droga foi estourada pela Polícia Civil do Paraná no meio do mato em Campina Grande do Sul, na região metropolitana de Curitiba. Foram necessários dois meses de campana no curso das investigações. Ao entrarem no local, os agentes depararam com 20 quilos de MDMA em estado bruto divididos em dois baldes e nove barris cheios de misturas químicas. “Só de nos aproximarmos, sentíamos náuseas e dor de cabeça devido à quantidade de substâncias tóxicas no lugar”, conta Rodrigo Brown, delegado do Centro de Operações Policiais Especiais. “Precisamos pegar um caminhão para retirar aquele material dali, e levou um mês para acharmos uma empresa que pudesse descartá-­lo sem contaminar o meio ambiente. Se os usuários tivessem noção do que é composta essa droga, certamente não a usariam.” Na batida, foram presas duas pessoas e apreendidas muitas folhas de papel com fórmulas químicas anotadas, como “perfume 200 g, peróxido de hidrogênio 600 litros, soda cáustica 300 quilos e tricloro etileno de 600 litros”.

A polícia calcula que uma fábrica clandestina do gênero tenha um custo de cerca de 40 000 reais. Além do investimento, é necessário conhecimento técnico específico para fazer o MDMA. Em fevereiro, um laboratório em Rio dos Cedros, no interior de Santa Catarina, foi desmantelado pela polícia de Balneário Camboriú. Ali foram presos o engenheiro químico Rafael Fuller, de 27 anos, formado em uma universidade particular da região de Itajaí, e outros dois auxiliares — ou “cozinheiros”, na gíria dos bandidos. Entre 2016 e 2018, Fuller passou uma temporada na Europa. A suspeita é que teria ido para um “programa de estudos” com o objetivo de aprender a elaborar novas drogas com uma pessoa que se identificava no seu celular como “Alemão”. Nas comunicações interceptadas pela polícia, há imagens de fundo de tela de Walter White, o personagem principal do seriado Breaking Bad, que narra a saga de um professor de química convertido em um grande traficante de metanfetamina dos Estados Unidos. Segundo os investigadores catarinenses, o grupo de Rio dos Cedros se referia a White nas mensagens como “mestre”. No local, a polícia encontrou, além dos apetrechos de laboratório, 40 quilos de MDMA em cristal e um macacão amarelo semelhante ao usado na série.

A viagem lisérgica proporcionada pela droga se dá por um conjunto de reações químicas. “O MDMA atua sobre os neurotransmissores serotonina, dopamina e noradrenalina. O primeiro deles, o mais afetado, controla as emoções e regula o domínio sensorial e a capacidade associativa do cérebro”, explica Zila van der Meer Sanchez Dutenhefner, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina. Em outras palavras: a substância provoca hipercomunicabilidade, sensibilidade exacerbada e alucinações visuais e auditivas, além de aumento da libido e da vontade de dançar. Seu uso contínuo pode desregular os neurotransmissores, provocando baixa produção de serotonina, o que pode levar à depressão crônica.

A despeito dos riscos, jovens de classe média alta que eram usuários de ecstasy ou cocaína vêm migrando com velocidade para o MDMA, atestam os frequentadores mais atentos da cena noturna das grandes cidades brasileiras. O ecstasy, muito popular até cinco anos atrás, caiu em desgraça por ser encontrado no mercado cada vez mais impuro. Quem tem dinheiro prefere o MDMA. “Faço ioga, corro e gosto muito do meu corpo torneado”, descreve a estilista O.N., de 27 anos. “Por isso, só uso MD porque sei que no dia seguinte consigo ir à academia e correr 10 quilômetros na esteira.” Fundador do Grupo Vegas, empresa que reúne bares, baladas e restaurantes e fatura mais de 50 milhões de reais por ano em São Paulo, Facundo Guerra diz ter visto o MDMA chegar ao Brasil em meados de 2009. A substância fazia parte de um circuito fechadíssimo e de elite. “As pessoas traziam de Berlim ou Ibiza e consumiam em ambiente ligado à música tecno”, conta. “Agora, ela se popularizou.”Publicidade

No Brasil, a fabricação, a distribuição e a venda da droga não são controladas (ao menos por enquanto) por grandes facções criminosas, como o PCC, dono dos mercados de maconha e cocaína. Com isso, a palavra traficante não existe no vocabulário dos usuários, que preferem o termo em inglês: dealer. Para efeito de consciência dessa turma, ainda que por vias bastante tortas, o fornecedor não é um criminoso, e sim alguém que frequenta seu mesmo círculo social. “Comprar MD não me faz sentir culpado porque sei que ele não mata nem paga propina a policial”, afirma o estudante W.P., de 20 anos.

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