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Quem tem coragem de voltar às aulas?

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A técnica de enfermagem Maria Cristina da Cruz tem vivenciado, todos os dias, a realidade da pandemia, dentro do hospital onde trabalha. Isso  só reforça a decisão de não deixar que os filhos retornem às aulas, sem que os índices de contaminação, pelo novo coronavírus, sejam controlados. “Sei o quanto é necessária a cautela”, afirma.

Ela é mãe de Raylanne, de 10 anos, aluna do 5º ano do Ensino Fundamental. A mesma regra vale, também, para o filho mais velho, Lázaro Jorge, de 18 anos, que está cursando Direito. “Nossos filhos estão sim, vulneráveis. É melhor que as aulas continuem remotas”.

Também da área de saúde, a médica, Andrea Cruz, pensa diferente e acredita que as escolas tomarão todas as precauções possíveis: “É importante sair desse círculo vicioso de televisão e tablet, um dia após o outro”, opina.

Artur tem 8 anos e está no 3º ano do Ensino Fundamental. “Ficaremos um ano com as crianças em casa, com esse baixo aproveitamento das aulas online? A escola remota foi uma das experiências mais estressantes e traumáticas que tive como mãe”.

Volta ou não volta? Mesmo que a Bahia ainda não tenha uma data prevista para o retorno às aulas presenciais, as escolas particulares afirmam que estão preparadas para o pós-pandemia. É o que garante o presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), Ademar Batista Pereira.

“As escolas privadas estão prontas para retornar. Já temos um plano construído com as escolas, a Sociedade Brasileira de Infectologia e o nosso setor jurídico. Precisamos voltar porque a pandemia não vai passar agora”, defende.

No plano orientado pela entidade constam 17 pontos de importância. Entre eles, o uso de álcool em gel e máscaras, a reorganização das turmas, a educação das famílias e a manutenção do ensino remoto para alunos que têm doenças crônicas.

Ainda segundo Pereira, as maiores dificuldades que as instituições privadas estão encontrando está no impasse com as secretarias de educação municipais e estaduais. A entidade, inclusive, divulgou uma carta questionando o fato de a volta das atividades nas escolas particulares estar vinculada à rede pública.

“Hoje, as secretarias de educação não podem mandar nas escolas privadas. Só querem liberar as duas redes juntas. Nós, como setor econômico, não podemos ser tratados assim”.

 Alerta
Para o presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Joel Bressa, mesmo que as escolas se mostrem preparadas, isso não elimina o risco de contágio pelo coronavírus. “Segurança total, nós sabemos que não haverá”, diz.

O momento exato do retorno deve considerar a evolução da doença, em cada região do Brasil. Em Salvador, conforme os últimos dados divulgados pela Prefeitura, a taxa de velocidade de crescimento da covid-19 está em 1,9%. “Não é só os casos reduzirem, mas manter essa taxa de queda por um período mínimo de duas semanas, tempo de incubação da doença. Se a taxa de contaminação é superior a 1, ainda não é o momento para a reabertura”, acrescenta Bressa, que chama atenção para a nota de alerta, elaborada pela entidade:

“A SBP recomenda que o pediatra seja bastante criterioso na hora de liberar o retorno desses estudantes, principalmente, se eles apresentarem quadros que podem sugerir covid-19, como febre, tosse, falta de ar, diarréia, coriza e conjuntivite”.

Pedro Henrique tem 11 anos e está cursando o 6º ano do Ensino Fundamental. Ele confessa que até tem sentido falta da escola e dos colegas, mas não deseja que as aulas retornem agora. “Ainda está sendo muito perigoso”, afirma. Pedro não desce mais para brincar no condomínio e nem para jogar bola na quadra, desde o início do isolamento social. “O que eu mais tenho medo é que alguém da minha família pegue coronavírus”, completa.

O professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Saúde Pública e pesquisador da Rede CoVida, Márcio Natividade, reforça que, apesar das crianças apresentarem infecções mais brandas em comparação com adultos jovens e idosos, elas podem se tornar vetores de transmissão para as famílias.

“Minha sogra faleceu há quatro dias. Ela não saia de casa para nada, não recebeu visitas e mesmo assim foi infectada. Então, como garantir a não circulação do vírus em escolas? As crianças não estão imunes. Muitas delas possuem idosos em seus lares. Não é seguro, ainda, retomar as aulas presenciais”.

Avó de Pedro, Maria José Sales faz parte do grupo de risco. “Por mais que a gente converse, sabemos que criança não tem muito cuidado com as coisas. Prefiro comprometer o ano letivo de Pedro, até que se controle a pandemia”, ressalta.

Impacto
Enquanto os pais convivem com o dilema do retorno ou não das aulas presenciais, as escolas tentam se reinventar, diante dos efeitos da pandemia. Na Bahia, as instituições de ensino completaram um pouco mais de quatro meses sem aulas presenciais. O Colégio Fortunato, localizado no bairro do Cabula, já perdeu 20% da receita e viu a inadimplência chegar a 18%, na pandemia.

A taxa de cancelamentos nos cursos de Educação Infantil e Fundamental I está em 8%, desde quando as aulas passaram a ser remotas. “Demitimos alguns colaboradores e seguramos, principalmente, aqueles com uma idade já avançada”, afirma o diretor da escola, Lury Fortunato.

No Colégio Marista Patamares, apesar da instituição não informar o percentual de cancelamentos, já está previsto o ensino híbrido, ou seja, enquanto um grupo participa das aulas presencialmente, a mesma aula será transmitida online, alternado a participação presencial, como assegura o diretor, Carlos Henrique da Silva. “Os estudantes do grupo de risco também poderão optar por permanecer exclusivamente na modalidade online”.

A Pan American School of Bahia (Pasb), em Patamares, chegou a reduzir o valor da mensalidade pela metade. A escola começou a realizar webnários para apresentação do plano de reabertura do campus. “Nosso protocolo está seguindo as melhores práticas de escolas-irmãs internacionais que já retornaram às atividades presenciais”, diz o superintendente da escola, Michael Martell.

Representante do Grupo de Valorização da Educação (GVE), Bisa Almeida é diretora da Escola Experimental Casa do Horto. Ela pontua que o coletivo formado por mais de 60 escolas particulares de Salvador e Região Metropolitana, ainda não sabe quanto irá gastar com a adoção das novas medidas.

“Não temos o valor exato do investimento a ser feito para a aplicação do protocolo. Pensamos em fazer uma compra coletiva, visando conseguir melhores condições, tendo em vista a difícil situação financeira que as escolas estão enfrentando”.

A pedagoga Maibi Teixeira é mãe de Maisa, de 7 anos, e Marina, de 1 ano. Ela afirma que confia nas medidas de segurança que as escolas devem adotar. “Pais como eu, estão retornando ao trabalho. Eu liberaria sim minha filha para retornar às aulas, orientando ela sobre essa segurança necessária. Confio muito no que a escola vai preparar, com relação a esse retorno”, apoia.

Dá para confiar?
No país onde a pandemia começou, os alunos retornaram equipados com uma pulseira eletrônica que mede a temperatura em tempo real e emite alerta em caso de febre, um dos sintomas da covid-19. Após quatro meses de medidas severas de isolamento social, a China reabriu as escolas não só com exigências básicas de proteção e distanciamento, mas com tendas de desinfecção e funcionários paramentados com roupas apropriadas e completamente desinfetadas.

Quem serão estes alunos que vão voltar para a escola, no pós-pandemia? Para a professora de psicologia da Unifacs e mestre em Ciências da Família pela Universidade Lateranense de Roma, Leonor Guimarães, vai ser importante explicar porque essa criança vai para a escola, porém ainda não pode ir para a casa do amiguinho brincar.

“Esse estudante apresentará sentimentos de estranhamento, euforia e medo. Será fundamental oferecer um espaço de acolhimento e escuta”.

A professora Norma Cruz é hipertensa. Ela faz parte não só do grupo de risco como também das educadoras que estão apreensivas. “Os alunos gostam muito de contato físico, beijos, abraços. Vejo que será uma grande e desafiadora aprendizagem”, considera.

Não vai dar mais para puxar a cadeira e sentar do lado do colega, nem ter aglomeração na hora do recreio. Além de hipertensa, a professora Joseana Onofre é diabética. “Me preocupa muito a carência de recursos, a confiança dos pais em mandar os filhos para escola, as questões pedagógicas, a expectativa de todos em ter que retornar nessa incerteza”.

Há um desejo do reencontro, mas um grande temor quanto a contaminação, como reconhece a professora do curso de Pedagogia da Unijorge e mestre em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Aldaci Lopes.

“É um processo em que todos estão aprendendo. A necessidade mais urgente é cuidar do bem-estar, da saúde e das emoções. É fundamental construir confiança. Todos nós precisamos disso”, propõe a especialista. 

CONSELHO APROVA PROTOCOLO DE REABERTURA

Até o momento, a Bahia não tem data definida para o retorno das aulas presenciais. No entanto, o Conselho Estadual de Educação (CEE) aprovou, nesta semana, a resolução com os parâmetros pedagógicos e de segurança sanitária que devem nortear a volta das aulas presenciais, em todas as redes.

Mesmo sem especificar as medidas, o líder do grupo que organizou a resolução, Nildon Pitombo, confirmou ao CORREIO que o CEE está finalizando a tramitação para o gabinete do secretário de Educação, Jerônimo Rodrigues.

“O documento deve ser divulgado após homologação. A reabertura das escolas está associada ao momento em que as autoridades sanitárias sinalizarem que se possa retornar. Na resolução, constam dois aspectos: a preparação pedagógica e o protocolo de segurança sanitária”.

Com base no Mapa de Retorno das Atividades Educacionais, elaborado pela Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), quatro capitais do país planejam a abertura em julho: Manaus, Rio de Janeiro, Fortaleza e João Pessoa. 

(Infografia: Axel Hegouet/ CORREIO)

Já Brasília, Goiânia, Maranhão e Tocantins avaliam a volta em agosto. Na quarta-feira (24), São Paulo definiu a data, prevista para 8 de setembro.

“O vírus não vai embora. Se aumentar a infecção, paramos de novo. O que não pode é ficar parado tanto tempo”, afirma o presidente da Fenep, Ademar Batista Pereira. Ao redor do mundo, as crianças voltaram às escolas, com regras bem parecidas: distanciamento social, uso de máscaras, salas com quantidade  limitada e higienização das mãos.

Na França, uma semana depois que as 40 mil escolas do país foram reabertas, 70 delas tiveram que ser novamente fechadas, devido ao surgimento de casos confirmados e suspeitos de covid-19. Mais recentemente, no Reino Unido, menos da metade dos alunos esperados apareceram na volta às aulas.

Em países vizinhos ao Brasil, só o Uruguai reabriu as escolas, em junho. Até que o Poder Executivo declare o fim da pandemia, a participação nas aulas presenciais é voluntária com menos horas por aula em só três dias da semana. “A escola não parou de trabalhar. Só mudou de lugar. A experiência de outros países, dá a oportunidade de usarmos esses exemplos para mostrar que o retorno é possível”, completa Pereira. 

O QUE OS PAIS QUE ESTÃO INSEGUROS PODEM FAZER? 

A Lei de Diretrizes e Bases (LDB) determina que todos os brasileiros estejam matriculados na educação básica a partir dos 4 e até os 17 anos, o que dificulta manter fora da escola uma criança ou adolescente, em idade escolar. O Conselho Nacional de Educação (CNE) pontua que, para cancelar a matrícula em uma escola, o responsável precisa comprovar que está fazendo a transferência para outra instituição. Caso isso não aconteça, a escola pode acionar o conselho tutelar.

A educação é um direito essencial. A Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), destaca ainda que tanto o Código Penal, quanto e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) consideram crime deixar uma criança de 6 a 14 anos sem estudar. Os pais podem responder por abandono intelectual que estabelece pena de detenção de 15 dias a um mês ou multa.

Diante do que regulamenta a legislação, o conselho para os pais que ainda não são favoráveis ao retorno é conversar com e escola, como recomenda a professora de psicologia da Unifacs e mestre em Ciências da Família pela Universidade Lateranense de Roma, Leonor Guimarães. “Sugiro uma conversa com a escola, verificar os protocolos de cuidado, segurança e a possibilidade de retorno posterior, sem prejuízo ao acompanhamento escolar”.

A professora do Curso de Pedagogia da Unijorge e mestre em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Aldaci Lopes, entende o receio dos pais nesse momento. “Não se pode deixar de considerar o papel dos pais na proteção e cuidados dos seus filhos, diante de tantas incertezas. É preciso que as escolas mantenham um canal de comunicação ativo para saber dos anseios das famílias”, analisa. 

DEPOIMENTO: “O MEDO PASSOU A FICAR MAIS PRESENTE”

Liliane Mutti, cineasta e mãe de Nico e Lola, de 6 e 5 anos – Moramos em Paris há dois anos e, aqui, a maioria das crianças estuda na escola pública. Ficamos três meses em casa e, então, veio o desconfinamento. Eles estranharam um pouco. Um sentimento de inadaptação, mas, também, de euforia por matar a saudade dos amigos. No início, as professoras usavam máscaras e o álcool gel era repetido inúmeras vezes.

As crianças tiveram que se adaptar a outra rotina. Os horários eram rígidos, com intervalos de 15 minutos, entre as turmas, para evitar aglomeração. Além disso, havia o medo.

Me parece que o medo passou a ficar mais presente, no dia a dia dessa geração. A morte também se tornou um assunto. O medo maior deles é de perder os pais, o que aconteceu com dois colegas da escola.

A volta às aulas foi feita por etapas. Primeiro, alternando os dias. No caso dos menores, a minha filha pode ir todos os dias porque muitos dos seus colegas não retornaram. Nesse período, a escola passou a ser opcional. O Nico, como está na alfabetização, tem um retorno mais difícil, porém, a professora tem sido suave.

Para ser bem sincera, não seguimos exatamente a ‘ecole à la maison’. Durante o confinamento, estávamos em tele trabalho e conciliar com duas crianças foi praticamente impossível.

Então, líamos livros que eles escolhiam e brincávamos sem tantas regras e horários. Agora, estamos iniciando uma fase do ‘detox’ da tela, porque o tempo de desenho animado excedeu os antigos combinados e sentimos o prejuízo. Agora, nosso desafio é retornar às regras do pré-confinamento.

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